Sentada ali na minha poltrona, tão carinhosamente escolhida para que eu tivesse um vôo agradável de volta, eu não conseguia me conter.
Mas, tive que.
Em primeiro lugar porque, o que é uma raridade!, as palavras me faltariam. Segundo, porque estava sozinha. E, terceiro, tenho que admitir: julgava que ninguém conseguiria entender. Sabe aquela sensação de que você está num momento especial e que sente uma certa pena das outras pessoas porque elas não viveram o que você viveu? Ou, no mínimo, não estão se sentindo como você está?
Soa prepotente, mas, é, na verdade, um estado de contente. De alegria e de realização.
Ao receber o convite do Alexandre Correia para o acompanhar e colaborar nesta formação gastronômica em Cabo Verde não pensei duas vezes.
Iria!
Mas, não fazia a menor idéia do que iria encontrar, da receptividade que iríamos ter e, na realidade, qual a exata dimensão do que iríamos fazer.
O convite havia sido feito pela Câmara Municipal de Ribeira de Santiago, e a idéia era iniciar o desenvolvimento de um polo gastronômico naquele Município, Cidade Velha, Patrimônio da Humanidade.
Só o que eu pensava era: eu quero! Noites insones matutando a melhor forma de aproveitar o tempo para passar pratos que fossem diferentes daqueles preparados nas ilhas, mas, que, da mesma forma, utilizassem a matéria prima existente lá. Nesse sentido, sobre o que havia lá, nos foi orientando o Sr. Nuno Rebocho, com seus e-mails calorosos.Português, hoje morador de Cabo Verde, é uma pessoa muito interessante, culta e simpática (e não apreciadora dos mariscos brasileiros, eu bem sei...). Casou-se com uma cabo-verdiana, da Ilha do Fogo, que ele diz ser linda e que eu acredito! Eu totalmente acredito! Porque as mulheres que eu vi ali têm vida, alegria e alma! São pessoas solidárias, camaradas entre si e com uma doçura latente. São mesmo lindas!
Já viram que eu adorei!
Pois bem.
Mal chegamos e fomos logo a uma reunião na Câmara Municipal da Cidade Velha, com o Vice-Presidente da Câmara, o Sr. Alcides de Pina. Participou dessa reunião também a Ernestina, que nos foi uma ajuda preciosa e indispensável durante todo nosso curso.
A Ernestina é essa moça bonita da direita. Do lado esquerdo da foto está a Alita, nossa aluna, dona do restaurante Casa Velha, e foi quem nos alimentou e nos ajudou imenso!! Tenho que falar da Celeste, a que está no meio: a simpatia em pessoa! Esse trio poderoso nos acompanhou, a mim e ao Alexandre, na manhã que antecedeu a primeira aula, para comprarmos os ingredientes.
Devo dizer que, na medida em que íamos conhecendo os centros de abastecimento, como o Mercado Municipal, o Mercado de Peixe e o super mercado local (na verdade há uma rede: Caluangela) íamos alterando e adaptando as nossas receitas e idéias para que pudéssemos ensinar coisas facilmente realizáveis.
Levamos sempre em conta a oferta e o preço. Afinal, para se trabalhar neste ramo da alimentação tem que se oferecer pratos feitos com ingredientes da melhor qualidade e que permitam uma margem de lucro.
Posso falar sem medo que das idéias que levei daqui e o Alexandre de Lisboa, vingaram poucas. Em compensação, brotaram outras, que couberam muito bem!
Cabo Verde é lindíssimo. Tem uma beleza nada óbvia, daquelas que vai te conquistando aos poucos e que quando você vê já foi feito refém dela: é beleza que se descobre, que não se mostra, assim, gratuitamente. É beleza de contrastes, de uma paisagem quase agressiva, árida,
na qual habita um pássaro lindo, exuberante...
Já vou eu, me desgarrando do assunto...
Voltando à oferta...visitamos o Mercado Municipal (que fica na Cidade de Praia). Várias vezes!!
Aqui cabe um parênteses: em Cabo Verde se fala português, mas a língua mais falada por todos é o crioulo cabo-verdiano, ou, simplesmente, crioulo. É uma língua alegre, sonora, cantada e contagiante. Nos primeiros momentos eu não entendia nada. Mas, quando dei por mim estava percebendo várias vezes o contexto. Porém, continuei entendendo muito pouco... e adorando ouvir! E onde era mais divertido ouvir era no Mercado.
Eu adoro Mercados. Adoro. Este é pequeno, e há pouca variedade de vegetais e frutas, justamente por conta do clima. Porém, o que há é bastante saboroso.
Mas, em contrapartida, os peixes...
Tivemos uma pequena amostra até irmos à fonte...o mercado de peixes!! No porto:
Peixes em profusão! Atuns maravilhosos. Garoupas, linguados... Uma festa!
Continuo na próxima postagem, contando, então, como foi a formação propriamente dita e mais um pouquinho de lá. Mas já adianto, até mesmo à guisa de desculpas, que descobri nessa viagem que meu temperamento afoito é o antídoto para uma boa foto...Tenho muito que aprender...Percebi (fui "percebida", com muita propriedade, por quem entende do assunto) que corto pés, ponho céu demais e omito o mar, por exemplo. Mas me divirto da mesma forma. A diferença (enorme) é que a intensidade do que eu queria mostrar fica guardada apenas para mim, enquanto que com uma boa foto já logo se vê. Porém, eu chego lá! Até breve!

